CONTO DO DIA
A BRUXA
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Autor: Zé do Caixão
Cristina era uma socióloga respeitada.
Especializou-se no estudo da época da inquisição, quando, sob
o manto da igreja, pessoas eram queimadas sob acusação de
bruxaria. Através de suas pesquisas concluiu que, na maioria das
vezes a perseguição era política, os acusados nunca haviam se
envolvido com satanismo. Alguns casos pareciam típicos de
doentes mentais, que mais deveriam ir para o sanatório que para
fogueira.
Um caso, contudo, chamou-lhe a atenção: Catarina, uma mulher do
século XVII, queimada num povoado do interior, conhecida como a
maior das feiticeiras. As lendas que dela se contavam perduravam
até os dias atuais, sobre seu poder e maldade. Morrera queimada,
jurando vingança.
Cristina viajara para a cidade que se desenvolvera perto do
antigo povoado onde a bruxa teve seu fim. Verificou que ,apesar
dos séculos, as pessoas conheciam histórias sobre ela, havendo
inclusive aqueles que jurassem ter visto reunião de demônios
comandados por Catarina em um vale próximo. Cristina ia assim
juntando material para uma nova tese, sobre o imaginário
popular.
Algumas coincidências, porém, logo chamaram-lhe a atenção. De
tempos em tempos sumiam crianças na região, que nunca eram
encontradas. Assim como começavam, os desaparecimentos
terminavam. Catarina era considerada culpada, mesmo séculos
após ter morrido. O fato é que nunca qualquer pista foi
encontrada. Justamente após sua chegada na cidade, crianças
começam a sumir, sem deixar vestígios. Havia mais de cinqüenta
anos que aquilo não acontecia, portanto não poderia ser a mesma
pessoa. Três garotos estavam desaparecidos. Não havia pista
alguma, uma testemunha que fosse.
Cristina envolveu-se com as investigações. Sentia que, se
desvenda-se aquele crime, poderia explicar a estranha influência
que aquela lenda exercia sobre a população daquele lugar.
Passado algumas semanas nada de novo havia sido descoberto. Das
outras crianças não mais foram vistas. O delegado local pensava
até em pedir ajuda federal. Cristina não dormia direito,
procurando, pela lógica, encontrar uma solução.
Um dia a socióloga aparece na delegacia. Não havia dormido a
noite anterior. Apesar de cientista tinha uma intuição.
Visivelmente alterada, pediu ao delegado que a acompanhasse com
alguns policiais. Foram ao local onde, pelos relatos que
descobrira, Catarina havia cumprido pena. Era um pequeno vale.
Movida por uma força estranha, Cristina, com as mãos escava o
sopé de um morro próximo. A terra estava fofa. Os pequenos
ossos não demoraram a aparecer.
Ao ver tudo aquilo, o rosto de Cristina se transformou. À vista
incrédula dos policiais, ela começava a gritar palavras
incompreensíveis. Era como se duas almas lutassem por um só
corpo. Suas feições iam, aos poucos, se transformando. Ela
despiu-se até que, completamente nua começou a dançar
freneticamente, num ritmo cada vez mais rápido, começou a
levitar. De seus olhos, emanava o próprio mal. Cristina havia
sacrificado aquelas crianças. Sem saber, seu corpo fora apossado
por Catarina, que assim executava a sua vingança.
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